10 lições que aprendi ao viajar sozinha para o Peru

Muita gente sonha em viajar para o Peru, então fiz um resumo das principais lições que aprendi ao ir pra lá, para que outras pessoas também possam usufruir dessa experiência ao máximo.

Se você está planejando seu primeiro mochilão, em particular uma mulher sozinha, provavelmente irá se identificar com as principais preocupações que eu tinha ao iniciar a viagem, por exemplo

  • Preciso reservar tudo com antecedência?
  • Posso confiar em um pacote fechado de agência de viagens?
  • Será seguro para ir sozinha?

Bom, vamos às dicas 😉

Peru é muito mais do que Machu Picchu

Sim, Machu Picchu é tudo que dizem e mais. É impressionante ver como a engenharia, arquitetura, astronomia, agricultura e a civilização de uma forma geral eram extremamente avançadas para época, considerando que não havia eletrônica/computação. É viajar no tempo e ter contato com essa civilização como se eles tivessem acabado de abandonar o local. Além de tudo, Machu Picchu está numa região de belezas naturais de tirar o fôlego e extremamente energética (pra quem se liga nessas coisas).

Acontece que Machu Picchu é apenas um entre os centenas de sítios arqueológicos existentes no Peru. Dezenas deles ficam bem próximos e costumam ser visitados pelos mochileiros na mesma viagem, como o Vale Sagrado ou os sítios acessíveis pela trilha Inca. Porém outros locais igualmente ricos e interessantes estão espalhados pelo país, como as linhas de Nazca, próximas à costa, Puno, ao sul do país, ou Chavin de Huantar, ao norte.

Além dos locais históricos, o Peru também é lar de trekkings belíssimos, como o Canyon del Colca, Santa Cruz e Huayhuash. Então conheça sim Machu Picchu, mas acrescente alguns dias (ou semanas, se possível) na sua viagem para visitar outras cidades.

Aproveite a comida regional

Não é novidade que a gastronomia peruana é uma das mais extraordinárias do mundo. No momento de escrita deste post (outubro/2018), três dos 50 melhores restaurantes estavam no Peru, em particular em Lima (veja a lista completa aqui). Porém se você deixar para aproveitar a comida só quando chegar em Lima, estará perdendo a gastronomia típica dos lugares que visitar. Cada região possui seus pratos marcantes, e eles terão o melhor sabor (e o melhor preço) se forem consumidos lá, e não em versões mais cosmopolitanas em Lima.

Tem restaurantes mais turísticos, bonitões e bem localizados, normalmente em mirantes ou de frente pra praça de armas, que vão servir os pratos típicos da região ou os clássicos peruanos a um preço mais elevado. Em compensação, não muito distante da praça principal, é possível achar restaurantes servindo os mesmos pratos com uma diferença de preço bem considerável. Lógico que pode fazer parte do passeio ir em algum restaurante mais “fancy”, mas no geral aproveite para comer bem sem gastar tanto.

Já vi pessoas evitando os restaurantes mais caros comendo fast food ou comida de má qualidade, e quero que fique claro que isso não é necessário. Nem precisa procurar muito pra achar restaurantes de bom custo benefício. Não precisa “apelar” pra fast food se quiser economizar, além de tudo você correrá mais risco de passar mal com comida e prejudicar sua viagem.

Praticamente tudo pode ser reservado na hora

Talvez por ser meu primeiro mochilão, ou por eu me preocupar demais com segurança pessoal por ser mulher e por viajar sozinha, acabei reservando as passagens de ônibus e um pacote para Machu Picchu com antecedência. Me arrependi. Quanto às passagens, senti que elas ameaçaram a flexibilidade da minha viagem. Acabei perdendo uma passagem porque decidi de última hora ficar mais uma noite numa cidade que eu gostei, e reagendei outras. Pra piorar, a viacão que adquiri as passagens era a mais cara de todas (Cruz del Sur). Com certeza era a de maior qualidade, mas tem outras opções com melhor custo benefício. A agência que fechei o pacote para Vale Sagrado + Trilha Inca Curta era caríssima, e péssima – passei por alguns perrengues, todos resolvidos no final, mas pelo preço o mínimo que se esperava era um bom atendimento.

A verdade é que tirando as passagens aéreas de ida e volta e o ingresso para Machu Picchu (incluindo os opcionais da trilha inca ou as montanhas Huyanna Picchu ou Machu Picchu), que precisam ser reservados com meses de antecedência no caso de alta temporada porque o número de visitantes é controlado, praticamente todo o resto se pode decidir na hora. Faça seu roteiro e planejamento, mas chegue na cidade, dê uma volta na praça de armas (a praça principal no centro de toda cidade no peru se chama praça de armas), e escolha a agência que te oferecer o melhor custo benefício. Hotéis e hostels também não precisam ser reservados com muita antecedência.

Para passeios com viés histórico/ cultural, contrate guias

Algumas pessoas procuram economizar nas viagens ao visitar os principais pontos históricos sem guia. É possível pesquisar no google um pouco sobre cada sítio arqueológico antes ou depois de conhecê-lo, mas garanto que a experiência com um guia profissional local será outra. Há guias locais que falam inglês, português e outras línguas. Você conhecerá detalhes relevantes e se aproximará da cultura se tiver acesso à informação que eles trazem, e deixará de usufruir dessas informações se abrir mão disso. Além de tudo, é mais uma forma de contribuir com a indústria de turismo.

Sempre que possível, fuja de passeios coletivos com agências

Sem querer contradizer o que disse no tópico anterior, que é bacana contribuir com o turismo local, eu aconselho fortemente a evitar sempre que possível os passeios em coletivos com agências. Primeiro porque não é nada personalizado – não separam grupos de pessoas mais aventureiras das mais interessadas em bater uma foto e voltar para o ônibus. Eles não organizam os tours de forma que o turista possa usufruir do local principal que está visitando – por exemplo, determinada lagoa ou sítio arqueológico. Eles vão reduzir o tempo nesses locais e te empurrar para os restaurantes, mercados e feiras que ganham comissão. Isso é bem frustrante, então acabei me separando do meu grupo e continuando o passeio por conta própria em mais de uma situação.

Se eu estivesse acompanhada, faria questão de contratar apenas o transporte de ida e volta, ou tour privados. Como não estava, consegui me virar bem alternando entre tour fechados, ou usar transporte público e rachando táxi com outros mochileiros que conheci pelo caminho, ou com guia particular mesmo. Mas por mais prático que os day-trip tours sejam, toda vez fiquei com a sensação de que gostaria de passar mais tempo em alguns lugares.

Portunhol é o suficiente, mas o inglês ajuda

Na maioria dos estabelecimentos no centro das cidades mais turísticas, as pessoas falam inglês ou “portunhol” – sim, lá eles também usam esse termo haha. Dá pra viajar pelo Peru tranquilamente apenas com o português, mas lembre-se que quanto mais distante do centro da cidade, as pessoas locais vão ter mais dificuldade – ou menos interesse – em tentar entender o que você fala. Um pouquinho de espanhol ajuda bastante. Você vai conhecer um monte de brasileiros em Cusco, Puno e Arequipa, mas o número vai diminuindo nas outras cidades. É nessas horas que o inglês abre portas – se você quiser fazer amigos de outros países, vai ser muito mais fácil se você souber se virar com o inglês. Conheci americanos, coreanos, espanhóis, australianos, italianos, poloneses, e mais um monte de gente que dependeu mais do inglês do que do portunhol. De qualquer forma, saiba que o idioma não é um impeditivo, mas fica aqui o incentivo para que se estude um pouco de espanhol e inglês para aproveitar melhor a viagem!

As cidades turísticas são razoavelmente seguras para viajantes

Uma das principais preocupações de nós, mulheres que viajam sozinhas, é se vamos estar seguras ao passear. A resposta é – sim, as cidades turísticas do Peru são super seguras para os turistas, inclusive para mulheres. Andei tranquilamente no centro de Cusco, Puno, Arequipa e Lima. Na região de Ica tive alguns desconfortos – os três guias que contratei – um para Nazca, outro para Ica e outro para Paracas – deram em cima de mim. Não me senti insegura, mas foi bem desagradável. Em Huaraz foi a única vez na viagem que me senti um pouco insegura mesmo. Fui andar sozinha à noite, e recebi alguns “Hola” mal intencionados, bem incômodos quando se é uma mulher em uma rua escura com homens desconhecidos próximos. Nada que eu não esteja (infelizmente) acostumada em São Paulo ou no Rio de Janeiro, mas igualmente incômodo. Obviamente existe uma cobrança maior com a segurança do turista nas cidades mais famosas. Huaraz também é bem turística, mas não se compara com Cusco por exemplo.

Por outro lado, comparando com outros destinos, me senti mais segura em Huaraz do que em Los Angeles. Pelo tempo que fiquei no Peru (21 dias), e pelo número de situações desconfortáveis que passei, posso dizer que com os devidos cuidados é um destino razoavelmente seguro pra se viajar.

Seja eficiente com malas e mochilas

Comprei uma mochila bem bacana da Quechua, de 50l. Consegui ajustá-la muito bem nas costas, mesmo com meus incríveis 1,52m de altura (hahaha). Acontece que mesmo com uma mochila boa, se você põe muito mais peso do que o recomendado (10% do seu peso), você vai sofrer.

Felizmente os hostels e hotéis do Peru, na sua maioria, se solidarizam com os mochileiros, e oferecem dois recursos muitíssimo importantes – armazenamento de malas e serviço de lavanderia. Ou seja, você pode ir com uma mala mais cheia, deixar parte do seu conteúdo guardado no hostel, e sair com menos peso pra fazer um trekking de alguns dias de duração, muitas vezes sem custo adicional. O serviço de lavanderia costuma ser barato, então se você preparar uma mochila com roupas para uma semana, poderá viajar por semanas numa boa, lavando uma vez por semana no hostel que você se hospedar. Eu confesso que levei mais roupas do que o necessário – mais do que o suficiente para uma semana, e tive vontade de vender ou doar coisas no meio do caminho :P.

Mais pro final da viagem decidi comprar uma mala de rodinhas para guardar as coisas mais pesadas e poder comprar os souvenirs (pisco, vinho, chocolates e lembrancinhas). Foi ótimo chegar com uma mochila e sair com uma mala de rodas além da mochila, eu já estava exausta na volta, foi muito bom carregar menos peso nas costas.

Da mesma forma que percebi que levei mais roupas do que o necessário, percebi que tem itens que são indispensáveis: seu kit de cosméticos (shampoo, condicionador, hidratante corporal, desodorante, protetor solar, repelente, protetor labial). Se você for ficar em hostel, dificilmente haverá shampoo ou condicionador gratuitamente. Hidratante corporal e protetor labial parecem supérfulos, mas sua pele fica extremamente seca durante esses trekkings. Protetor solar e repelente são seus melhores amigos dependendo do lugar que você for.

Outra coisa importante é a farmacinha. Leve o básico de remédios que você já conhece e confia. Eu levei pra dor de cabeça, gastrite, bandaids. Me arrependi de não levar antisséptico (tipo metiolate ou coisa assim). Fui viajar com a garganta inflamada, então estava tomando já o citoprofeno e levei mais uma cartela. Como eu não sabia como ia ser minha alimentação, preferi garantir levando comprimidos de polivitaminicos, o suficiente para toda a viagem. Cuidado com exageros – tem gente que traz um monte de remédios que nunca tomou na vida porque a tia da amiga recomendou, por medo do mal de altura ou alguma doença desconhecida. Melhor prevenir mal estar do que se entupir de remédios sem prescrição. Vou explicar melhor no próximo tópico.

Respeite seus limites

Logo no começo da viagem, conheci no hostel algumas pessoas que tinham cancelado os tours do dia seguinte porque estavam com mal estar. Isso me ajudou a prestar mais atenção ainda em como eu levava a viagem, porque não queria ter que ficar de molho porque abusei.

Não foi difícil evitar comida gordurosa, porque há muita opção de pratos típicos sem gordura em excesso. Sim, comi uma pizza um dia, um hamburguer na outra semana, enfim. Só não exagerei, procurei comer leve, beber bastante água, tomei minhas cápsulas de vitaminas religiosamente rs, e respeitei muito meus limites durante os trekkings.

É claro que dá vontade de bater todos os records ao escalar uma montanha ou fazer um trekking difícil. É muito bacana poder dizer que conseguimos cobrir determinado trecho em menos tempo que a média das pessoas, mas é mais bacana ainda poder curtir o passeio e aproveitar todo o caminho se sentindo bem. Toda vez que eu senti meu coração acelerar, eu parava por alguns segundos, respirava bem, e seguia. Na laguna 69, que são 7km de trilha pra chegar numa lagoa a 4.600m de altura, precisei parar muitas vezes. Mas fiz a trilha com bom humor, curtindo a paisagem incrível a cada passo. Não passei mal em nenhum momento, mas vi muita gente sofrendo no caminho. Se o corpo está pedindo descanso, pare e descanse. Não é uma competição.

Durante a viagem, haviam crianças, idosos e pessoas com mobilidade reduzida fazendo os mesmos tours que eu. Esses passeios não são pra um tipo físico específico. É pra gente perseverante, que conhece e respeita seu corpo. A mesma trilha pode demorar 1, 2, 3 ou 4 horas dependendo da pessoa. Tem gente que vai precisar subir no cavalo, tem gente que vai com a mochila nas costas. Mas chegar no topo é recompensador da mesma forma. A única coisa que se precisa prestar atenção é no horário de visitação.
A montanha Machu Picchu, por exemplo, fecha pouco depois das 12h. Então se você tem mobilidade reduzida, ou algum problema cardíaco (e aprovação do seu médico pra isso, for Christ sake), se programe pra fazer a trilha cedo e poder ir com calma.

Sobre localização, comunicação e transporte

Hospedagem: Procure sempre locais próximos à praça de armas. Daí leve em consideração seu estilo – quer conhecer pessoas novas? Hostel. Quer conhecer pessoas novas mas também quer dormir? Hostel com quarto privativo. Quer um pouco mais de conforto? Daí sim procure hotéis, mas garanto que há hostels com quarto privativo com qualidade de hotel, e um preço bem mais em conta.

Comunicação: As hospedagens e boa parte dos restaurantes oferecem Wifi. Sinceramente, eu acabei abusando um pouco do roaming da minha operadora, principalmente em dias que estava me movendo de uma cidade para a outra, por questões de segurança. Ter internet não é só uma questão de conforto, te dá tranquilidade e ajuda a resolver qualquer perrengue que possa acontecer, então se não quiser depender do roaming, compre um chip com um plano de dados local, como o da Movistar ou da Claro. Guarde o whatsapp da recepcão do hostel e de cada guia ou serviço que você contratar.

Transporte: No Peru, o preço dos táxis não é absurdamente caro como no Brasil. É praticamente o mesmo preço do Uber, então não acho que Uber valha a pena. De preferência, peça para a recepção da hospedagem solicitar os táxis pra você. Se precisar pedir táxi na rua, troque algumas frases com o motorista antes de entrar pra ver se ele não é grosseiro (alguns são, como em todo lugar do mundo). Fale o local de destino e pergunte o preço, compare com a média e negocie se possível. Boa parte dos motoristas é guia também, pegue o contato dos que você mais gostar porque pode ser útil.

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O Peru é realmente um destino sensacional, e é possível se ter uma experiência rica em muitos sentidos ao viajar para lá! Espero que essas dicas ajudem vocês a terem uma viagem bem aproveitada. Se tiverem algo pra complementar, alguma outra dica importante, compartilhem nos comentários.

Boa viagem!

Publicado por

Grazi Bonizi

Coordeno a trilha de Arquitetura .Net no The Developers Conference, compartilho código no GitHub, escrevo no Medium e no Blog da Lambda3, e participo de Meetups e PodCasts normalmente sobre DevOps, Azure, .Net, Docker/Kubernetes e DDD

2 comentários em “10 lições que aprendi ao viajar sozinha para o Peru

  1. Oi Grazi! Que legal sua trip! Parabéns!! Estou indo em agosto e queria dicas de hostel para fica em lima e Cusco! Abraço!

  2. Oi! Adorei as dicas. Estou planejando ir sozinha para Cusco no próximo ano (junho) e estou com dúvida quanto aos passeios: é realmente fácil conseguir passeios bons nas agências da praça central? Ou são todos em grandes grupos como vc comentou? Obrigada desde ja!

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